“pareidolia”, dos Gestopatas. Notas de um apocalíptico presente

a toda essa massa de hidrogênio e hélio
             que se desintegra e reintegra
             sem se saber pra quê
                                                                             poema sujo, Ferreira Gullar

 

Eis que os Gestopatas nos presenteiam, após três work-in-progress, com pareidolia – depois do fim, resultado final de anos de estudos e elaborações em cima de um tema: o limite do humano. Não significa que esgotem com isto a possibilidade de elaborações sobre este tema ou a continuidade de seus estudos do corpo, mas que fica assim concluído seu opus nº1, de forma imprevisível e autêntica. O espetáculo se passa numa terra pós-apocalíptica, onde não se encontram formas de vida plenamente humanas, mas apenas “seres” em sentido genérico, híbridos que gravitam entre o humano e qualquer outra coisa. Ao fim do texto, há duas fotos da apresentação, feitas por Bruno Fochi (Foca). É possível ainda encontrar um teaser da apresentação do youtube.

A palavra “pareidolia” denomina a tendência a interpretar determinados estímulos como coisas familiares a nós: rostos em motivos art nouveau ou frentes de automóveis ou – como no trabalho da cia.  – objetos do quotidiano, utensílios: escorredores, formas de bolo, etc. Proveniente da preposição παρα ([para],“em torno de”, “ao largo de”) + εἴδωλον ([êidolon], “imagem”), a pareidolia nos cria uma espécie de familiaridade naquilo que vemos. Além disso, εἴδωλον é uma palavra que mantém estreita relação  com o verbo  οἶδα ‎(“eu sei”), a pareidolia é uma espécie de conhecer pelo erro: na medida em que reconhecemos naquilo que vemos algo que não vemos, mas encontramos no que vemos, deixamos de ver aquilo que vemos para ver aquilo que conhecemos. É um conhecimento que se dá pelo engano e pela falha: enquanto o conhecimento ocidental – sobretudo na modernidade – se consolidou pela via da prova, sobretudo visual (a todo instante exigimos uns dos outros provas, atitudes, mostras, evidências), o conhecimento da pareidolia se dá pelo que não propriamente é evidente, mas pelo que aparece no evidente como sugestão e dúvida. O espectador se pergunta: será um rosto ou cones e formas de bolo? Objeto ou face? Humano ou híbrido? O que devo enxergar quando vejo a cena?

Ainda em relação ao trato dos materiais, a isomorfia (relação fundo-forma, significante-significado, fonêmica-semântica) não se dá simplesmente através da matéria física do espetáculo – os objetos-máscara, o cenário, a iluminação – mas aprofunda-se na relação entre intelecto e referente-de-mundo. A ambientação num mundo pós-apocalíptico confere densidade e sentido concreto ao significado destes materiais. Os atores – inevitavelmente humanos – não escondem suas características humanas. Pelo contrário, estas são evidenciadas. Na medida em que a roupagem escura se confunde com o ambiente escuro, as partes do corpo que não estão aparecem fora da roupa sobressaem: são rostos e pedaços de corpo. Estes rostos e pedaços de corpo estão a serviço sempre de uma articulação que apenas rudimentarmente pode ser associada  ao humano. Quando tem os rostos expostos, os atores operam com expressões faciais grotescas, emitem apenas grunhidos, são o humano exposto na negatividade de sua pathia, capazes mesmo da aniquilação do próprio humano (como na cena do canibalismo). Por outro lado, encarnados nos seres – termo da cia. para os seus bichos (um deles, inclusive, bastante lygiaclarkiano) – os atores expõem uma outra desenvoltura, como se o híbrido do pós-apocalipse fosse mais humano que o humano ou, melhor dizendo, propriamente humano diante da degeneração do humano. Basta ver a figura do “pescador”: é um humano, pleno em si, relaxado e envolvido em sua pescaria. Ou do “ser fêmea” disputada por dois “forma-de-bolo”: sua desenvoltura é nitidamente humana.

“Os artistas são as antenas da raça”, disse o poeta Ezra Pound. Ora, se que quer dizer com isto? Quer dizer que o artista, contido na inevitabilidade fugir ao seu próprio presente, consegue captar neste presente o por-vir, como quem dissesse: “o futuro já está entre nós”. O mundo pós-apocalíptico apresentado pelos Gestopatas é, assim, o próprio presente e não poderia ser outra coisa: o artista, como todos os outros seres, só é capaz de habitar o próprio tempo. O pós-apocalipse é, assim, o tempo que habitamos. Um tempo de ocaso, onde o humano é só e só vagamente humano, capaz de devorar a si mesmo crendo ser outro: nesta cena, a luz vermelha já se seria por si capaz de fazer compreender o canibalismo. No entanto, pela via do exagero (ou como alguém que liga uma sirene de alarme), os atores no palco fazem voar pedaços de corpo, como quem deixa patente: no tempo de hoje, no dia de hoje os homens devoram os homens. No apocalipse gestopático, como a palavra apocalipse diz, sobrevém e aparece desde o presente aquilo que este próprio presente encobre: o embrutecimento e o empobrecimento da experiência humana. Esta tensão está aberta e em jogo em cada aspecto do espetáculo, desde sua estrutura fundamental até às nuances da iluminação em cada cena.

Não se trata, porém, de uma fatalidade pessimista. Isto nos mostra o outro lado da tensão, exposto de forma simples na cena final: sob a luz azul (a mesma iluminação do “pescador”, o que permite entrever uma relação entre as duas cenas…), os atores, sem máscaras, sob a sua “forma humana”, compõem o movimento da onda com o plástico-bolha que forra o palco (o mar é outra figura da peça que mereceria aprofundamento) e, neste movimento de onda, aparece o ser “galão”, que vem lentamente (a profundidade do palco foi bem utilizada na montagem), entre os destroços largados durante a apocalíptica peça (apocalípeça?) até rente à primeira fila e de um monturo de plástico retiram um “bebê-galão”. É de se notar que, ao contrário das demais incorporações dos seres, esta última seja uma transmutação aberta, virada para o público, do humano em híbrido. A pathia, que se expunha como negatividade até o instante (a-patia), converte-se assim em possibilidade de positividade, isto é: é necessário ao ser humano ser híbrido, ou melhor: o humano é híbrido de si mesmo, sua permanência em meio ao apocalipse se dá pela mudança, é esta mudança, encarada de frente como os atores encaram os público de frente que se oferece como geratriz de vida, é ela que confere sentido “a toda esta massa de hidrogênio e hélio | que se desintegra e reintegra | sem se saber para quê”. O nascimento aparece em cena já como ápice e confirmação desta possibilidade de vida, e nasce também híbrido, pois a mudança conjura e se renova com mudança. Resgatando outro pequeno fragmento do imenso poema de Ferreira Gullar, poderíamos dizer que em meio aos escombros de membros e objetos, naquele “azedo de lama | (e não obstante| se amam)”. Os Gestopatas oferecem, na sua generosidade de artistas, o alarme e o colete salva-vidas: há um apocalipse no presente, mas há um presente no apocalipse, e este presente é a possibilidade de resgatar-nos de nós mesmos. Mas para isto é necessária a mudança e o amor, pois é possível, em meio ao “azedo de lama”, amar.

Parabéns Ademir, Cecília, Julia, Tânia e os outros que estiveram nesta jornada (e estão, porque o caminho é parte do todo): Foca, Mariana, Tadeu, Vitoria. E vida longa aos Gestopatas!

Rafael Lemos, 1-7-16.

Fotos de Bruno Fochi:

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e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa não é a viagem mas o começo da

Abrem-se assim as Galáxias de Haroldo de Campos e, para evocar o bom augúrio à inauguração deste blog, abre-se esta jornada ao convite da viagem veraviagem voragem: começo.

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Tendo isto dito: começo.