“Cem anos de Solidão”: algumas observações

Já insisto há alguns anos: Cem anos de solidão é a Ilíada da América Latina.

A especificidade de nossas áreas de estudo, se por um lado proporciona um olhar mais verticalizado de determinados temas, por outro  impede que realizemos comparações mais inusitadas. Não por culpa individual – é importante frisar-, mas pelo próprio caráter delimitador inerente às áreas e pelo grande volume de comentários e crítica com o qual temos de lidar, nem classicistas costumam abordar temas da literatura contemporânea nem críticos literários e estudiosos da temática latino-americana estão a par da bibliografia da área de Clássicas.

Há exceções, é certo, como Eric Havelock (A Musa Aprende a Escrever) e Marshall McLuhan, que em certos momentos buscaram traçar paralelos entre a comunicação antiga e a contemporânea com base na relação entre media e transmissão da informação. Atuando particularmente na literatura, temos o poeta americano Ezra Pound e, com base neste, no Brasil, o trio Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari, inventores da poesia concreta. Tendo por paradigma as figuras-protótipo dos poetas Inventor (“Homens que descobriram um novo processo ou cuja obra nos dá o primeiro exemplo conhecido de um processo”) e Mestre (“Homens que combinaram um certo número de tais processos e que os usaram tão bem ou melhor que os inventores”), tanto Pound quanto os poetas concretos propõem uma discussão do cânone e, seja em seus estudos, seja em suas traduções, empreendem uma espécie de revisão da história da poesia, Desde Homero e lírica greco-romana até Cummings, passando pelos provençais, pela poesia clássica chinesa, Mallarmé, entre outros. Neste tipo de estudo que habita as interseções da Antiguidade e da contemporaneidade seria o caso de citar ainda outros, como Gilbert Murray e seu livro The Classical Tradition in Poetry, o compositor e professor da Escola de Música da UFRJ Antonio Jardim em seus estudos de Poética e mesmo, em um espectro mais amplo, Nietzsche: o pensamento nietzscheano, suas indagações acerca da história, da moral e da modernidade, sua reflexão sobre o ser humano estão constantemente em diálogo com sua formação filológica.

Retornando ao nosso assunto: já há alguns anos enxergo o romance “Cem anos de solidão” como o épico da América, mas, mais precisamente, da América Latina, obra análoga ao poema homérico. A Ilíada e a Odisséia, conforme se nota desde a Antigüidade, são obras de formação do éthos grego. A Ilíada, por sua própria narrativa, é detalhada em procedimentos de guerra: lida com embarcações, construção de defesa, reuniões de conselho, hierarquia, etc.

De forma semelhante, Cem anos de solidão traz em si o motivo da viagem; a gramática da guerra, as formas de acordo e retórica entre amigos e com o adversário; as diferentes formas de relação afetiva (pais, cônjuges, irmãos, filhos, etc.), bem como as formas do amor; a lida com estrangeiros (os ciganos, os árabes, a cia. bananeira – o assunto não é abordado diretamente na Ilíada como é na Odisséia, mas é uma questão central do mundo antigo), a importância de manter o éthos da comunidade e o preço do desenraizamento… Sendo um romance contemporâneo, procedimentos religiosos não aparecem de forma detalhada – pelo menos não ao nível do detalhe com que rituais são descritos na Ilíada. No entanto, o mito do progresso se faz presente como uma espécie de substituto: estão lá as transformações no modo de produção, as etapas do capitalismo, o apelo quase salvacionista da conquista tecnológica e o entusiasmo que esta é capaz de provocar (mesmo quando Macondo é ainda uma vila completamente isolada). Não sou capaz, no momento, de aprofundar esta comparação, pelo tempo que tomaria e sobrtudo por não ter a Ilíada em mãos.

Difere, no entanto, o final. Se a Ilíada não possui propriamente um final (i.e: não é a história da Guerra de Tróia e não termina com a queda de Tróia), ela representa a narrativa de um povo vitorioso que – hoje há quem pense assim – de Homero a Alexandre e Aristóteles, está na rota de seu apogeu (uma espécie de “iluminismo” grego). Cem anos de Solidão, como épico latino-americano, está balizado,  por um lado, no desenvolvimento do progresso. Por outro, esta baliza tem por contrate o sagrado,  que fica patente final ao fim do romance numa espécie de imagem-síntese trágica do sub-continente (e por isso digo que, embora seja um épico da América, tendo pontos de contato com a história também da América do Norte, é precisamente a narrativa da América Latina): o turbilhão que varre tudo (como no ourobóros, a história acaba quando juntam-se suas pontas: o último Buendía, Aureliano Babilônia – o nome é simbólico – lendo a origem de sua linhagem).

Nunca soube dar significado preciso a esta imagem. No entanto, quer me parecer que este turbilhão pode remontar às inúmeras narrativas do dilúvio, não obstante sendo uma narrativa às avessas: enquanto o dilúvio aparece nas narrativas sagradas como um recomeço, o turbihão em Cem anos de solidão responde pela extinção de uma, por assim dizer, miragem. A América alimentou utopias desde seu descobrimento: a ideia de um paraíso terreno, com fartura, homens livres sem hierarquia, belezas naturais sem fim e uma vida sem agruras deixa suas marcas na Utopia de Thomas Morus, nas cartas de Colombo e Caminha, nos Ensaios de Montaigne (especialmente o Dos Canibais). Ainda hoje, esta noção da América como síntese, como terra vocacionada para a unidade das diferenças, capaz de acolher a diversidade do ser humano está presente em nosso imaginário: basta uma leitura na obra de autores como Oswald de Andrade (especialmente os poemas de Pau-Brasil e os manifestos e a tese sobre as utopias) e Gilberto Freyre. De forma mais difusa, isto pode ser sentido em Galeano e mesmo na cultura norte-americana (no segundo anexo de O Mistério do Samba, Hermano Vianna mostra como a miscigenação foi defendida como algo de positivo nos Estados Unidos por figuras de renome, como o presidente Roosevelt e o antropólogo Franz Boas).

Retornando à cena final do romance de García Marquez, o turbilhão, na medida em que varre Macondo e o último Aureliano, e a leitura da história de sua própria família, fazem com que este ganhe consciência: “compreendeu que jamais sairia deste quarto”. Ao mesmo tempo, o romance chama Macondo (que será varrida da memória dos homens) de “ciudad de los espejos (o espejismos), sendo assim uma espécie de miragem, que é como os tradutores para inglês e português traduzem a palavra “espejismos”, o que reforça a noção de Macondo/América como um paraíso perdido. Completando a visão trágica, é de se notar que o livro de encarre da seguinte forma: “as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra”. Se por um lado, a teleologia divina em Homero opera uma narrativa de vitória, aqui lê-se a teleologia de um paraíso que se perde, uma narrativa de decadência e desaparecimento. Neste sentido, pela sua humanidade, Cem anos de solidão aproxima-se mais de tragédias e da decadência humana presente em Os Trabalhos e os Dias.

Novamente: no caso de Macondo, o paraíso é desterrado pelo avanço do progresso (e do capitalismo). Mas não é uma perda (golpe dialético de García Marquez) que pudesse ser evitada: quando Aureliano Babilônia descobre que desde sua linhagem estava condenada desde o princípio, monta-se, como já mencionado, uma teleologia. Aqui, novo ponto em comum com a Ilíada e com o mundo grego em geral: a lógica fatal do destino tendo por paradigma os laços de sangue.

Se nesta virada, o autor engendra uma história de derrota e perda do paraíso América, por outro lado foge de uma crítica ingênua do progresso. Ao esquivar-se do risco de cair numa atribuição de valor puramente negativo ao progresso, Cem anos de solidão toca em dois pontos fundamentais 1) que o progresso pela via do capitalismo é devastador, sobretudo nas periferias do sistema (isto é evidente nos episódios da cia. bananeira, que se instala, trata de montar cercas que separam seus dirigentes do restante da população de Macondo, exploram a terra e os funcionários, aniquilam os revoltosos no episódio da greve e partem, deixando para trás a terra arrasada e a miséria); 2) a pergunta de fundo da historia de Macondo, que é uma das perguntas de fundo da história da América Latina, especialmente vista em contraste com a América do Norte: em que ponto as coisas passaram a dar errado? Ainda quando Macondo é um vilarejo, José Arcadio Buendía é um homem entusiasmado com o progresso e toda a população o acompanha neste entusiasmo; quando os ciganos chegam, as descobertas que trazem são bem recebidas; mesmo quando Macondo começa a ter contato com cidades vizinhas e se estabelece um comércio (os árabes), a cidade prospera. Em que momento, nesta trajetória “rumo ao progresso”, os habitantes da cidade perdem tornam-se dependentes de fatores exteriores e esta dependência os conduz a ruína?

É uma questão de extrema importância, uma vez que o romance, visto por este ângulo que proponho, constitui-se como narrativa da história latino-americana. A resposta, no entanto, em sua complexidade, transcende os limites deste texto, que apenas tenta fazer aproximações entre a obra-prima de García Marquez e o poema homérico, tentando extrair destas aproximações observações relevantes mas, ainda, somente observações. Talvez, porém, um lugar para começar a pensar esta resposta seja o livro Teoria do Brasil, de Darcy Ribeiro, onde este procura enxergar o processo civilizatório tendo por base a seguinte tese: as revoluções tecnológicas afetam o modo de produção e a ideologia e criam antagonismos entre os povos que encabeçam a revolução e as “formas anteriores de associação” e seus respectivos “corpos ideológicos pré-existentes”. A partir deste ponto de virada “todos os povos envolvidos nesses movimentos se transfiguram […] de duas formas distintas” (30): uns experimentam um movimento de aceleração, emancipação e autonomia, outros passam pelo que Darcy Ribeiro chama de “incorporação histórica”, passando a dependentes e objetos de domínio dos povos autônomos. É certo que esta teoria não explica o porquê de determinados países centralizarem estas revoluções tecnológicas. No entanto, é uma base eficiente para pensar processos de colonização, como a perda de poderio de Portugal e Espanha para a Inglaterra e a relação disto com as distintas formas de exploração das Américas. No entanto, isto é assunto para muito mais que um texto em um blog…

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