Artéria e a atualidade da poesia visual brasileira

A revista Artéria é hoje, como gostam de lembrar seus idealizadores, a revista de poesia experimental mais longeva do país. Com suas 11 edições mais duas (a revista-fita cassete Balalaica e a Zero à esquerda, tentativas paralelas de revista dos mesmos realizadores de Artéria) e, apesar de intervalos longos entre seus números – por vezes mais de uma década – a revista chega aos seus 42 anos viva e atuante. Se considerarmos o fato de que a grande maioria das revistas de poesia de vanguarda no país, quando passam do primeiro número, raras vezes chegam ao terceiro, sendo raríssimas as que chegam ao décimo (como a histórica Revista de Antropofagia e a Código, editada pelo poeta baiano Erthos Albino de Souza), Artéria possui uma trajetória de fôlego surpreendente.

Artéria tem seu primeiro número em 1975 e vem na esteira de uma série publicações da época de caráter experimental: Navilouca, Polem, o primeiro número de Código. Embora as revistas de poesia de vanguarda no Brasil tenham antecedentes já no Modernismo, a leva de revistas de poesia|arte experimental que surge na virada dos anos 60 para os 70 surge, em grande medida, amparada pelas empreitadas da poesia concreta: ainda nos anos 50 noigandres, nos anos 60, Invenção – revista de arte de vanguarda. Isto pode ser facilmente verificado pelo fato de que boa parte destas revistas conta com a participação dos concretistas históricos – Haroldo, Augusto, Décio, Ronaldo Azeredo, José Lino Grunewald.

Embora não sejam revistas que sigam à risca a linha construtivo-formalista instaurada pela poesia concreta em sua fase heróica, o diálogo desta nova geração da poesia visual com os concretos se dá através da Tropicália, do debate vanguarda, arte experimental e cultura e comunicação de massa, da abertura da poesia a novos suportes, meios, linguagens. Como consta no primeiro editorial da página Invenção, que circulou no Correio Paulistano durante o ano de 60, dois anos antes da revista Invenção. “página aberta à experiência,  não […] filiada a uma tendência determinada, o ponto de encontro […] é justamente a invenção. […] o imitativo, o regressivo, o nostálgico podem dirigir-se a seus canais costumeiros. Aqui não há lugar para eles.”.

Em Navilouca, na página anterior à foto de Caetano segurando o poema vivavaia, o poema soneterapia de Augusto de Campos sintetiza o espírito destas revistas em sua última estrofe: “quem não se comunica dá a dica | tó pra vocês chupins desmemoriados| só o incomunicável comunica”, como quem dissesse: só a vanguarda, acusada de “hermética”, “encastelada”,“alienada” – um parecer que ainda hoje perdura, mas que pode ser desmentida numa pequena busca aos jornais da época -, soube se abrir à dimensão do novo e da massa: entre outras, quadrinhos, iéiéié, Tropicália, e mais tarde, James Bond. Soube apropriar-se do inevitável influxo norte-americano na cultura brasileira do pós-guerra e transformá-lo em conteúdo e informação nova, de ponta, brasileira (ou, como queria Oswald secundado por Haroldo, “de exportação”). Augusto de Campos, em artigos de 67 sobre arte e tecnologia dá o tom desta discussão: é necessário apropriar-se do que há de mais tecnológico, útil e funcional e para fazer aquilo que há de menos mercadológico: poesia.

Olhando em retrospectiva, não cabe aqui querer disputar o que é a “arte genuinamente brasileira” – questão morta-viva que até hoje assombra -, mas apenas caracterizar sob que signo nascem estas revistas. Uma pista talvez seja o fato de “assumir o experimental” como arte brasileira. É o que Hélio Oiticica reivindica: “o potencial experimental gerado no brasil é o único anticolonial | não culturalista nos escombros híbridos da “arte brasileira” | tão CONCRETO quanto à sua exportabilidade”.

Artéria surge, assim, três anos após Navilouca e conta, desde seu primeiro número, com a participação de Décio, Augusto e Haroldo. Segundo Omar Khouri e Paulo Miranda, a revista conta desde o início com as vocações “intersemiótica (interdisciplinar) e mutante (proteica)”, isto é: 1) intersemiótica porque se propõe a agregar em suas páginas um tipo de poesia que empregue em sua fatura algo além do código verbal (numa espécie de redimensionamento da frase de Pound: “poesia não é bem literatura…”), mas que tenha apelo visual e estes estejam em isomorfia, quer dizer: participem do poema de forma funcional e não-acessória, seja na elaboração de sua forma, seja como elemento ativo no entendimento de seu conteúdo e mesmo como parte constituinte do próprio conteúdo; 2) mutante (proteica) por conta do seu compromisso com a mudança. Ao longo dos anos, Artéria já foi sacola, caixa, revista offset tradicional, fita cassete, site e caixa de fósforos.

Isto que aqui chamo de “compromisso com a mudança”, sua característica mutante, é parte fundamental da concepção de Artéria. Mais ainda do que a mudança de suporte, ao longo de seus 42 anos a revista perseguiu o que o poeta Julio Mendonça (colaborador em diversas edições de Artéria) chama de compromisso com a descontinuidade. Se questiona: “existe alguma pessoa ou instituição habilitada a afirmar qual o tipo de poesia que deve ser feito agora? ou se trata de afirmar com qual passado a poesia de agora deve estar comprometida? Ou podemos entender que certas formas de fazer poesia foram|são mais capazes de descontinuar os compromissos com o que estava| está à sua volta?”. Por descontinuidade deve-se entender aqui a capacidade de movimentar o próprio contexto em que se está inserido: toda época compreende tendências majoritárias (i.e., que partilham em maior ou menor âmbito do poder) em qualquer que seja o campo que estejamos lidando (literatura, música, pintura, moda, etc.). O compromisso com a descontinuidade é o rompimento com estas tendências que, uma vez que partilham do âmbito do poder, tendem também ao conformismo, à não-reflexão sobre si, mas tão-somente dedicam seu esforço à manutenção do próprio poder.

Daí Artéria optar historicamente pela via do rigor e do maior esforço: todos os seus números foram financiados por seus editores e colaboradores, sendo, por vezes, confeccionados pelos mesmos. A revista sempre encontrou-se vinculada à Nomuque Edições (Nomuque = no muque), editora dos fundadores da revista que, assim, como a revista, optou por manter-se à margem do mercado, carecendo até hoje de registro legal. Por isso alguns números, sendo de fatura inteiramente artesanal, tiveram de ser adiados por anos, Artéria 6 chegando a 11 anos de gestação graças ao seu custo de viabilização e disponibilidade da equipe de trabalho (que, além do dinheiro, emprega também sua força de trabalho na realização da revista). Vantagens e desvantagens: perde-se em segurança e conforto, ganha-se em independência.

O campo mais importante e evidente, no entanto, desta descontinuidade é, claro, a poesia, razão da existência da revista. Herdeira da tradição da poesia concreta, Artéria trabalhou desde seu primeiro número com o limite da poesia: em livre associação, se fazem presentes em seu primeiro número dois fragmentos de Galáxias (então inéditos; tudo isto tem que ver e passatempos e matatempos), um trecho da conferência sobre o nada (Lecture on nothing), de John Cage na tradução de Augusto de Campos, uma releitura de Omar Khouri do poema de Oswald (transformando metonimicamente o poema numa gozada, num êxtase bem humorado do amor, a partir da evidenciação das iniciais das palavra , AH!) e o encarte reviravolta, de Paulo Miranda. Listo estes apenas para exemplificar que, da construção complexa à simplicidade, Artéria opta sempre pela lida com trabalhos que estejam no limite da forma “poêmica”, flertando com a prosa experimental (a “proesia” de Galáxias), com as artes plásticas, com a música.

Cabe destaque aqui para o texto de Cage. Augusto de Campos afirma que o maior poeta da segunda metade do sec. XX é Cage, um músico. O texto de Cage presente no primeiro número da revista é uma conferência que está dividida em compassos, ou seja: é música. E seu tema é… o nada (seu início: “estou aqui e não há nada a dizer […] o que nós requeremos é silêncio, mas o que o silêncio requer é que eu prossiga falando […] Não tenho nada a dizer e estou dizendo e isto é poesia como eu quero” [É possível uma associação analógica com Manoel de Barros: “…mas quando não quero fazer nada, faço poesia”]).

Há nos números seguintes outras experiências de radicalidade: Artéria ainda um lado, por assim dizer, pop|Kitsch, publicando os trabalhos de Omar Khouri que flertam com os quadrinhos, o pôster sem título de  Lênin + pentelhos de Julio Plaza, citações-recriações como a square is a square is a square de Carlos Valero, o buraco negro da linguagem de Julio Mendonça, onde, por associação icônico-indicial a frase-título vai se metamorfoseando, primeiro num labirinto e depois em morcegos e os poemas não-verbais de Gastão Debreix, um dos quais tem por título é, ironicamente, Diálogo. Tudo isto ao lado de trabalhos como a tradução de Safo por Haroldo de Campos. Isto evidencia outro aspecto de Artéria: ao longo dos anos, a revista publicou poetas conhecidos ao lado de jovens poetas, sem distinção de quilate ou vertente. A revista acaba por converter-se uma espécie de antologia antológica, um documento, talvez o único relativamente sistemático, da produção de poesia visual no Brasil das últimas quatro décadas. Artéria documenta, assim, boa parte das experiências-limite da poesia brasileira recente que, talvez por desconhecimento e pelo desafio que proporcionam, ainda sejam pouco estudadas, ainda circulem pouco no âmbito acadêmico-universitário. Talvez mesmo pela dificuldade ainda patente de reconhecer  determinado âmbito da criação como poesia, que talvez efetivamente não seja. Vale aqui a observação de Julio Mendonça: “omar khouri e paulo miranda chamam as obras dos participantes da revista de trabalhos […] não são poemas? é difícil predizer o futuro disto”.

Rafael Lemos

Texto apresentado no Fórum de Literatura Brasileira Contemporânea, 2016, na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

As citações podem ser encontradas no catálogo da exposição Artéria 40 anos. Disponível em https://issuu.com/espacoliquido/docs/a40_catalogo-sp_web

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s