Sobre Augusto de Campos: arte, tecnologia e contemporaneidade

Atualizando o blog com a comunicação que fiz na VII Semana de Filosofia da UniRio, no dia 4 de maio de 2017. Parto do princípio de que, além de exímio poeta, Augusto de Campos é um teórico de qualidade acerca da posição da arte e do artista na contemporaneidade. Suas reflexões, ainda que apoiadas em outros pensadores, como Marshall McLuhan e mesmo Décio Pignatari, possuem caráter próprio e, se justapostas a sua obra poética, apresentam levantam questões e apresentam saídas originais. Segue o texto abaixo.

Poesia e tecnologia: formas políticas de uma vanguarda

“os artistas são as antenas [da raça]: um animal que negligencia os avisos de suas percepções necessita de enormes poderes de resistência para sobreviver”. (Ezra Pound)

O poeta Augusto de Campos escreve, no ano de 1967, uma série de artigos (apenas um deles encontra-se publicado em livro hoje) a respeito do tema “Arte e Tecnologia”. Embora seus artigos tenham por fim a divulgação, resenha e crítica de obras específicas lançadas à época (como a revista The Structurist), olhados hoje e postos em relação com sua obra poética e teórica, permitem que se busque uma reflexão inventiva própria de Augusto de Campos acerca do lugar da poesia de vanguarda em uma sociedade de massa, em consonância e diferença com os teóricos de sua época.

É necessário contextualizar, ainda que brevemente: a poesia concreta, em sua fase heróica (52 a 59), ocupou-se com a forma do texto poético, suas estruturas e relações internas, a criação de uma linhagem de precursores, uma operação de síntese destes precursores a técnicas e parâmetros base, buscando assim uma espécie de “atomização” da poesia baseada em dois postulados poundianos: “make it new” ou “literatura é novidade que permanece novidade” (POUND, 1977, 33) e a noção de paideuma: “a ordenação do conhecimento de modo que a próxima geração possa achar, o mais rapidamente possível, a parte viva dele e gastar um mínimo de tempo com itens obsoletos” (IDEM, 1977: 161).

A partir de 1960, com a política nacional, de um lado, acenando de forma otimista para a realização de certas reformas de base, desenvolvimento industrial e um aumento geral do bem estar social, e os setores artístico-culturais, de outro, criticando a poesia concreta por um suposto não-engajamento, uma não-tomada de posição – crítica (equivocada) que cresceria com o golpe civil-militar de 64 – os poetas concretos dão um giro em sua pesquisa acerca da linguagem: se antes os concretos afirmaram em seus manifestos não haver “nada fora do poema”, no editorial de Invenção nº1 (a segunda “dentição” de revistas da poesia concreta) é possível ler: “O artista é um produtor de idéias sensíveis, quando não acionantes, e a luta contra a marginalidade a que o condenam não deve levá-lo a fazer o jogo de uma sociedade utilitarista, como a nossa,[…] Está condenado. Alienado. Trabalha sob pressão e opressão e é nessa condição que deve lutar e construir”. Há ainda um giro no eixo da forma: num primeiro momento, a preocupação dos concretos era a construção da forma; em seu momento de engajamento, a passa a ser a semantização da forma. i.e.: como atribuir significado à forma?

 

Retornando ao nosso assunto. É possível encontrar nos manifestos da poesia concreta, uma tomada de posição acerca do poeta e sua função na contemporaneidade. Mais do que isto, há também uma reflexão acerca dos meios através dos quais o poeta pode realizar-se enquanto tal. A respeito disto, são emblemáticas duas frases do “plano-piloto”: “poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas” e “poesia concreta: tensão de palavras-coisa no espaço-tempo”. Sendo assim, a adequação do poeta e do poema aos meios de comunicação contemporâneos sempre foi uma preocupação dos poetas concretos. No prefácio a sua série de poemas coloridos, poetamenos, de 53, Augusto escreve “luminosos, ou filmletras, quem os tivera!”. Demoraria ainda uns anos, mas, em 97, sairiam seus primeiros video-poemas, vertente da poesia ainda pouco explorada no Brasil.

Nos anos 60, Augusto adota Marshall McLuhan como principal teórico para suas reflexões acerca dos meios de comunicação na sociedade de massas. Mcluhan entende a passagem da modernidade para a contemporaneidade – em termos de meios de comunicação – como a passagem da fragmentação para a contração. Diz: “A reestruturação da associação e do trabalho foi moldada pela técnica de fragmentação, que constitui a essência da tecnologia da máquina. O oposto é que constitui a essência da tecnologia da automação. Ela é integral e descentralizadora, em profundidade, assim como a máquina era fragmentária, centralizadora  e superficial nas relações humanas” (McLuhan, 1974: 21-22). O meio de comunicação não pode ser, porém, entendido como uma mera técnica instrumentável pelo e para o uso humano. Antes, o contrário disto. Nas palavras de Augusto: “O meio de comunicação, cria um novo contexto, uma nova extensão da vida sensorial e um reformulador de tôdas as sensibilidades.”. Daí a proposição-síntese de McLuhan: “O meio é a mensagem”, ou seja, o meio de comunicação não diz nada senão a si mesmo, não se refere senão a si mesmo. “Os novos contextos são sempre canibalísticos: eles desnudam e comem o homem vivo”, diz Augusto de Campos parafraseando uma entrevista de McLuhan.

No entanto, “qualquer tecnologia pode fazer tudo, menos somar-se ao que já somos” (McLuhan, 1974: 26). Como assim? Numa tentativa de explicação, o poeta paulista atende por uma posição-síntese: “… a ideia de que a tecnologia e a natureza são antitéticas é um resquício do século XIX. Ela deixa de compreender que a tecnologia e tudo o que ela implica não passam de uma natural extensão nos sistemas muscular, sensorial e nervoso do homem”. Embora seja uma reflexão simples, sem maiores esquemas filosóficos, seu sentido é igualmente claro: toda comunicação e informação produzida por parte do homem não poderá ser outra coisa que não humana. Se os novos ambientes e meios de comunica são sempre canibalísticos, Augusto associa-os em seu texto à antropofagia oswaldiana: a devoração não funciona aqui como uma destruição, mas, mais propriamente, como a transformação e o surgimento de algo mais forte. Não existe, na antropofagia oswaldiana, devorador e devorado, são ambos irrelevantes: o importante é “acertar o relógio império” através da “milionária contribuição de todos os erros”, “pela síntese […] pela invenção e pela surpresa”.

Ainda de acordo com McLuhan, se o meio é a mensagem e comunica a si mesmo, o conteúdo desta mensagem é sempre o meio anterior. Isto explicaria, por exemplo, a obssessão das vanguardas do início do séc. XX com a máquina: uma vez que a luz elétrica já havia revolucionado a forma do ser humano estruturar a vida, suas ações e associações, a máquina foi elevada a uma espécie de culto nostálgico como obra de arte, sendo possível ouvir até hoje associações do corpo humano ou mesmo da mente a uma máquina. (Um parêntese: hoje, na época do p2p, da arte-ambiente, do design individualizado, de formas de resistência política experimentais, é sintomático, para o bem e para o mal, que ressurjam neo-hippies, que retornem ao vestuário peças de roupa pré-1950, que haja surtos vintage de uma forma geral, que apareça uma geração apaixonada por novelas (ainda que via Netflix), que o movimento político de esquerda ainda se comporte como nos anos 70). Não há nada de positivo ou negativo nisto: são ações e estão dentro da ambiência proporcionada pelo meio de comunicação vigente. McLuhan nota: “não deixa de ser bastante típico que o ‘conteúdo’ de qualquer meio nos cegue para a natureza desse mesmo meio” (McLuhan, 1974: 23).

McLuhan: “A mensagem da luz elétrica é como a mensagem da energia elétrica na indústria: totalmente radical, difusa e descentralizada” (McLuhan, 1974). A velocidade dos meios de comunicação é, assim, o propulsor de uma pulverização da imagem, isto é, ela cria um ambiente onde o as imagens são recolhidas de forma desencontrada, sem prioridade. É preciso entender esta descentralização de forma dialética. Virilio nos diz: “velocidade é poder”. No mundo cego pelo excesso da imagem, quem hierarquiza e prioriza nossa recepção destas imagens é o poder: na época de Augusto de Campos e McLuhan, o rádio e posteriormente, a televisão; na nossa, Google e Facebook. Entra aqui novamente a consideração acerca da função do artista. O artista é o encarregado de explorar as novas mídias e criar a consciência do novo contexto. Augusto de Campos escreve em sua coluna no jornal:

“Como deve o artista responder a um mundo elétrico em que tudo ocorre simultáneamente? Em primeiro lugar, o artista deve tornar patente a existência desse mundo e não se deixar perder pelo interesse na velha maquinaria

da era industrial precedente.”

E

“A arte deve ser vista, então, como uma tentativa de estender a consciência. A tarefa da arte, agora, é estender a consciência para dentro do contexto, criar um contexto que seja, êle próprio, totalmente consciente.”.

Em outras palavras, a tarefa do artista é justamente jogar na falha e na contramão deste poder, trabalhar a velocidade (tecnologia) contra o poder, trabalhar na conscientização, não sistemática, doutrinária, mas da existência da estrutura de poder e da lida com o meio de comunicação atual – poesia é resistência quando é design do mundo, atuando do mesmo modo que o meio, i.e., na reelaboração das sensibilidades, mas contrariamente ao poder. Esta é uma preocupação evidente na obra de Augusto de Campos. Se o circuito elétrico cria um mundo de sucessão desorganizada de eventos, o artista responde com o happening. Em 64, Augusto, Waldemar Cordeiro e Damiano Cozzella executaram um happening na Galeria Atrium, em SP, como abertura à exposição dos popcretos: entre serrotes, pedaços de móveis e sucata de automóveis, a tomada de posição. Numa época onde a arte não-representacional já garantia seu lugar como peça decorativa e item de mercado, surge uma manifestação artística que dura exatamente o tempo de sua instauração, impossível de venda, mas só de experiência. Experiência do quê? Experiência da conscientização do mundo em que já se vive: o happening, assim como a pop-art, nos diz Augusto de Campos, “… toma um fragmento do contexto e o coloca dentro de um [espaço] de arte”, anunciando o próprio contexto como obra de arte.

No popcreto SS (poema ao fim do texto), por exemplo, a colagem de recortes de jornais joga com “semântica ambígua das siglas”. A sigla SS, aparece assim, como índice plural, como signo, a princípio, a múltiplo: a SS nazista, eSSo, geSSy Lever, Soviete Supremo, cifrões, a miSS, o progreSSo e, sobre Cuba, “Sem Sanções”. Diante da pluralidade dos “detalhes-detritos da realidade” e seu processo de significação imediata, porém, a uniformidade da sigla é fria: ao contrário de um nome, que é capaz de evocar um significado sem que esteja imediatamente remetido a um contexto, a sigla não aponta para nenhum referente-de-mundo, a menos que já se encontre atrelada ao nome que ela signifique ou ao contexto deste nome. Funciona mais como uma articulação fonética desprovida imediatamente de sentido do que como um signo. Augusto constrói, portanto, com o “semi-signo” SS, não associações a significados imediatos, mas, dentro desta justaposição de “detalhes-detritos da realidade”, uma rede de denotações onde, de forma mais próxima ou mais distante, todas as palavras encontram-se dentro de um grande campo semântico: nas palavras de Augusto, “o caos antropofágico brasileiro”. Este caos antropofágico, no entanto, não é uma carnavalização de questões sociais, mas a evidenciação de uma ligação entre regimes de exceção (a polícia nazista, o Soviete), o poder do capital internacional (eSSo, geSSy Lever, progreSSo) e a sociedade do espetáculo (miSS). A este procedimento, Augusto dá o nome de concreções semânticas, i.e., a maneira da poesia concreta encarar o problema da semântica e do engajamento no poema.

A respeito da era da eletricidade, McLuhan afirma: “Eletricamente contraído, o globo já não é mais do que uma aldeia. A velocidade elétrica, aglutinando tôdas as funções sociais e políticas numa súbita implosão, elevou a consciência humana de responsabilidade”(McLuhan, 1974: 19). Trazendo esta responsabilidade para o campo da arte, o poeta concreto afirma: “Muitas pessoas ainda gostam do seu invólucro e se apegam ao papel de consumidor. Mas a nova forma de arte simplesmente requer que o público seja produtor e não consumidor! Isso demanda uma grande dose de energia e de empreendimento da parte do espectador.” e “a função da arte não é desenvolver resíduos e incrustações de tipo fóssil; mas mover-se rápidamente, à maneira de guerrilhas, em novas esferas de ação e enfrentar conjuntamente novas espécies de contextos, criar novos tipos de cápsulas de tempo e de espaço em que o homem possa sobreviver, a despeito de suas próprias fantásticas invenções.”

Rafael Lemos

BIBLIOGRAFIA

CAMPOS, Augusto de. poesia antipoesia antropofagia & cia. SP: Cia das Letras, 2015.

MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. Tradução: Décio Pignatari. SP: Cultrix, 1974.

POUND, Ezra. ABC da literatura. SP: Cultrix, 1977.

 

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