William Carlos Williams, por Allen Ginsberg

Dia 4 de março comemorou-se a passagem de William Carlos Williams. Poeta americano, um dos que alavancou a poesia moderna americana após a Primeira Guerra Mundial. De Williams, fico apenas com o momento onde Ginsberg o descreve em sua poética: “…abre toda uma nova área da realidade sobre a qual você pode escrever, e que era o ponto de Williams – que a poesia é uma forma de recuperar nossas próprias vidas (penso que estas são suas próprias palavras), de rememorar, recuperar, tomar posse de nossas próprias vidas, mais do que conduzir uma vida herdada, mais do que mentalmente seguir imagens e as práticas mentais e as formas do pensamento de outros séculos e outras terras”.(1)

Deixo para leitura o poema que Allen Ginsberg escreveu acerca da morte de Williams, traduzido por mim. As notas são da edição de Fernanda Pivano.

Notícia de morte

Andando de noite na estrada de asfalto
do campus ao lado do Instrutor Alemão com Óculos
W.C. Williams está morto disse ele com sotaque
sob as árvores em Benares; Eu parei perguntei
Williams está morto? Entusiástico e de olhos abertos
sob a Big Deeper(2). Parado no Pórtico
do bangalô da International House Annex
insetos zumbindo em volta da luz elétrica
lendo o obituário Médico no Time.
“out among the sparrows behind the shutters”(3)
Williams está na Big Dipper. Ele não está morto
como as muitas páginas de palavras emoção em arranjo
com suas entonações as bocas de crianças humildes
tornando-se sutis mesmo em Bengala. Assim
há uma vida movendo-se para fora de suas páginas; Blake
também “vivo” através de suas experienciadas máquinas.
Foram suas últimas palavras qualquer coisa de Negro lá fora
no quarto acarpetado da casa de madeira
em Rutherford? Me pergunto o que ele disse,
ou teria qualquer coisa restado nos reinos do discurso
após o ataque & a freme-cérebro ruína entraram
em seus pensamento? Se eu rezar por sua alma no Bardo Thodol(4)
ele poderá ouvir a inesperada vibração de estrangeira piedade.
Quietamente desconhecido por três semanas; agora eu vi Passaic (5)
e Ganges, um, consentindo sua devoção,
porque ele percorreu a margem de aço & rezou
para uma Deus no rio,  que ele somente inventou,
uma outra Ganga-Ma(6). Montando no velho
ferruginoso submarino Holland(7) no andar térreo
do Paterson Museum ao invés de um crocodilo celestial.
Lamentai, Ó Vós, Anjos da Esquerda! que o poeta
das ruas agora é um esqueleto sob o pavimento
e não há outra velha alma tão doce e humilde
e queixo feminino e ele-olhos pode ver vocês
O que vocês queriam estar entre os bastardos lá fora.

20 Março, 1963.

tradução: Rafael Lemos
Death News 

Walking at night on asphalt campus
 road by the German Instructor with Glasses
 W. C. Williams is dead he said in accent
 under the trees in Benares; I stopped and asked
 Williams is Dead? Enthusiastic and wide-eyed
 under the Big Dipper. Stood on the Porch
 of the International House Annex bungalow
 insects buzzing round the electric light
 reading the Medical obituary in "Time".
 "out among the sparrows behind the shutters"
 Williams is in the Big Dipper. He isn't dead
 as the many pages of words arranged thrill
 with his intonations the mouths of meek kids
 becoming subtle even in Bengal. Thus
 there's a life moving out of his pages; Blake
 also "alive" thru his experienced machines.
 Were his last words anything Black out there
 in the carpeted bedroom of the gabled wood house
 in Rutherford? Wonder what he said,
 or was there anything left in realms of speech
 after the stroke & brain-thrill doom entered
 his thoughts? If I pray to his soul in Bardo Thodol
 he may hear the unexpected vibration of foreign mercy.
 Quietly unknown for three weeks; now I saw Passaic
 and Ganges one, consenting his devotion,
 because he walked on the steely bank & prayed
 to a Goddess in the river, that he only invented,
 another Ganga-Ma. Riding on the old
 rusty Holland submarine on the ground floor
 Paterson Museum instead of a celestial crocodile.
 Mourn O Ye Angels of the Left Wing! that the poet
 of the streets is a skeleton under the pavement now
 and there's no other old soul so kind and meek
 and feminine jawed and him-eyed can see you
 What you wanted to be among the bastards out there.

 Benares, March 20, 1963"

Notas:

(1)trecho que retirei e traduzi de http://ginsbergblog.blogspot.com.br/2011/08/spiritual-poetics-11-william-carlos.html . Mas também encontra-se disponível em áudio na coleção do Naropa University: https://archive.org/details/naropa?&sort=-downloads&page=2

(2)Big Dipper: Nome dado às sete estrelas que formam o corpo principal da constelação de Ursa Maior.

(3)citação imprecisa de January Morning XIII(?) de Williams.

(4) Bardo Thodol: Segundo os Lamas do Tibet, Bardo é o estado que intercorre entre a morte e o renascimento. Bardo Thodol significa: “Liberação mediante escuta no plano do pós-morte” e implica um método yogue aproximação da liberdade nirvânica, para além do ciclo de nascimento e morte. É um livro sagrado, resumo das principais doutrinas da escola budista do Mahayana e baseado na ciência oculta da filosofia yogue ensinada na universidade budista  de Nalanda, a Oxford da Índia antiga. Como manual místico de conduta através do mundo exterior dos vários campos de ilusão (cujas fronteiras são a vida e a morte) assemelha-se ao Livro Egípcio dos Mortos. Seja o Livro Egípcio dos Mortos (cujo título exato seria A Saída do Dia; em egípcio faraônico: Per Em Hru) seja o Livro Tibetano dos Mortos (em tibetano: Bardo Thodol) introjetam com métodos diversos a arte de morrer  e aproximar-se a uma vida nova de modo mais simbólico e esotericamente profundo do que o fazem os tratados da Europa cristã medieval sobre a arte de morrer (entre os quais se pode considerar típico o Ars Moriendi).

(5) O rio que banha Paterson, a cidade sobre a qual William Carlos Williams escreve um poema.

(6) Ganga-Ma: a mão Gange, representada tradicionalmente cavalgando um crocodilo.

(7) Andrew Holland: construtor do primeiro submarino, conservado (ainda que completamente enferrujado) no Paterson Museum.

 

 

 

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Hölderlin

Friedrich Hölderlin aniversaria, isto é, nasce, renasce este mês. Estamos adiantados, é verdade. Mas, para não deixar o blog sem atualizações e lembrar esta data que virá – 20 de março (de 1770) – deixo aqui as duas traduções que fiz de poemas deste e um poema que fiz para Hölderlin.

Hölderlin foi negligenciado durante anos, e mesmo por seus contemporâneos (dentre os quais Schelling, Schiller, Voss…): suas traduções do grego foram motivo de piada, e isto  ficou registrado em carta. Schelling, por exemplo, escreve a Hegel: “A versão [de Hölderlin] de Sófocles demonstra cabalmente que se trata de um caso perdido”. Somente a contemporaneidade, em sua reavaliação dos princípios de tradução (a desconfiança da possibilidade de uma “tradução fiel” e, por conta disso, uma proliferação de reflexões acerca do tema), reabilitou as traduções de Hölderlin. O mesmo se passa, quer me parecer, com seus poemas: visto com reservas, sobretudo em relação às obras fragmentárias de seu período da loucura, Hölderlin não teve a mesma aceitação canônica que contemporâneos seus, como Goethe e Schiller. Me faltariam fontes de apoio, mas tenho a impressão de que é a partir do fim do século XIX que sua obra poética passa a ser encarada como grande, tão grande quanto a dos maiores poetas alemães. Basta ver o acolhimento entusiasmado que filósofos como Nietzsche e Heidegger fazem à sua obra.

Sem mais a dizer, passo às traduções:

A Diotima

Bela vida! tu vives, como as ternas flores no inverno,
No envelhecido mundo vives secretamente só.
Amável almejas além, a ti ao sol, na luz da primavera
A aquecer; nela buscas a juventude do mundo.
Teu sol, o belo tempo é ocaso
E na gélida noite urra-se apenas o furacão.

tradução: Rafael Lemos

An Diotima

Schönes Leben! du lebst, wie die zarten Blüten im Winter,
In der gealterten Welt blühst du verschlossen, allein.
Liebend strebst du hinaus, dich zu sonnen am Lichte des Frühlings,
Zu erwarmen an ihr, suchst du die Jugend der Welt.
Deine Sonne, die schönere Zeit, ist untergegengen
Und in frostiger Nacht zanken Orkane sich nun.

Aos jovens poetas 

Amados irmãos!, madura talvez nossa arte esteja
Pois, qual jovem não seja, longe vai seu fermento,
Rumo ao repouso da Beleza;
Sê apenas devotos, como o grego o foi.

Amai os deuses e pensai amigos aos mortais!
Repeli arroubo e frio! Nada ensinai ou descrevei!
Quando o Mestre os amedrontar,
Pedi à grande Natureza um conselho!

tradução: Rafael Lemos

An die jungen Dichter

Lieben Brüder! es reift unsere Kunst vielleicht,
Da, dem Jünglinge gleich, lange sie schon gegärt,
Bald zur Stille der Schönheit;
Seid nur fromm, wie der Grieche war!

Liebt die Götter und denkt freundlich der Sterblichen!
Haßt den Rausch, wie den Frost! lehrt, und beschreibet nicht!
Wenn der Meister euch ängstigt,
Fragt die große Natur um Rat.

Abaixo, “Antígone/Hölderlin, o poema que fiz como homenagem à Hölderlin e sua tradução:

Hölderlin Antígone POEMA.jpg